Guia rápido de como falar (ou não falar) com mulheres sobre feminismo.

[Nota: esse texto não é para homens que acham que está tudo bem, que não vivemos em uma sociedade machista ou que não vêem sentido em feminismo. É para aqueles que enxergam a desigualdade de gênero que vivemos e entendem a importância do movimento feminista.]  

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Dia desses estava num almoço com um amigo de longa data (e bem próximo de redes e veículos que discutem com profundidade assuntos de gênero), conversando sobre uma situação bem específica: estávamos os dois em uma vivência de alguns dias, onde homens e mulheres exploravam seus corpos e sexualidade através de vários tipos de práticas, meditativas e corporais. 

Levantei, entre uma garfada e outra, um incômodo meu: não estava me sentido acolhida, como mulher, por aquele espaço. 

Disse pra ele:

- Acho que esse espaço não deveria tratar todos os seres como iguais, homens e mulheres, de um jeito ingênuo e simples. Deveria considerar o contexto social de desigualdade e cuidar pra que o ambiente acolha realmente as mulheres.

Ele perguntou em seguida:

- Qual contexto, Anna?

Comecei a me exaltar um pouco na fala - confesso - e disse:

- As mulheres sofrem todos os dias, o tempo todo, na rua, nos ônibus, nos empregos, com a desigualdade de gênero… - e segui um bocado mais, tentando explicar o contexto socio-cultural que, ao meu ver, não podia ser ignorado, nem sequer ali, naquele espaço espiritualizado.

Falei aproximados 40 segundos. Foi quando meu amigo me interrompeu com um comentário-bomba:

- Entendo tudo isso e concordo, mas acho que precisa tomar cuidado pra não aumentar demais o volume e começar a adotar uma fala anti-homem.

Mesmo sendo um comentário bem comum de vários homens sobre as falas feministas, aquele me caiu como uma bigorna, por vir daquele amigo em especial.

Daí em diante, tudo descambou pra uma discussão longa, sem muitos pontos positivos. Dela, eu espremo os seguintes parágrafos, itens guia pra qualquer homem ter uma conversa sensata com uma mulher sobre feminismo.

Preparado?

(Se ainda não leu, recomendo ler a nota-prévia no começo do texto antes de seguir em frente).

1. Amplie a escuta

Primeiro de tudo: ouça. 

Deixe a mulher se expressar sobre a questão dela, o sofrimento, o incômodo, qualquer que seja. Não interrompa, não pontue nem virgule. Não importa se você acha que tem algo super relevante pra ser dito. Não importa se é a sua mãe, avó, amiga, namorada ou uma feminista da web que você nunca viu antes. Comece ouvindo, com carinho, atenção e coração aberto. 

Tente se colocar nos sapatos dela.

Se é difícil demais (e geralmente é), nada como começar treinando empatia de um modo amplo. 

Empatia não é pena, dó, caridade — todos sentimentos condescendentes. Empatia não é amor, simpatia, agrado — todas manifestações de afeto pessoal. Empatia não é entendimento, compreensão — todas operações de redução e controle. Empatia não é algo que se exerça de fora para dentro, de uma pessoa para outra. Empatia é ESTAR dentro de outra pessoa, sentir o que ela sente, pensar o que ela pensa. E, sim, é tão impossível quanto soa e tão imprescindível quanto parece.

Não, não é nada fácil. Pra noção de empatia ficar menos etérea e mais tangível, recomendo demais os textos incríveis (e exercícios) do Alex Castro. 

2. Treine a não-opinião

Junto com ampliar a escuta, treinar a não-opinião é outro guia mestre para essas conversas.

Mas são bem diferentes.

Podemos ser bons ouvintes, mas, lá dentro, estarmos maquinando e desenvolvendo pensamentos, conectando pontos, articulando boas respostas e opiniões afiadas.

Pare.

Em nossa sociedade narcisista, onde somos criados para achar que o mundo gira à nossa volta, tendemos a dar um valor excessivo a nossas próprias opiniões. (Afinal, são opiniões dessa pessoa tão incrível: eu!)
Pior, achamos não só que temos um direito divino de ter opinião sobre tudo, como também de expressar essa sabedoria a todo momento, e, mais ainda, que é um favor que fazemos às pobres mortais dizer a elas o que pensamos sobre suas vidas. Mas essa constante e infindável salva de opiniões que atiramos umas contra as outras é uma violência, é uma intrusão, é puro egocentrismo. 
Alex castro - Exercer a não-opinião | exercício de empatia 6

Treinar a não-opinião é libertador, e, ouso dizer, o maior exercício de empatia de todos os tempos.

3. Feminismo não é um escudo de proteção

Depois de falar do combo ouvir + treinar não opinar, ouço com frequência a grande tirada do escudo de proteção de titânio:

- Ah, mas não posso abrir a boca? Assim é fácil pra vocês. Só porque a mulher é feminista isso serve de proteção pra que ela possa falar qualquer baboseira?

A resposta é não. 

O feminismo não é um escudo de proteção nas conversas. Você não precisa ouvir tudo calado, concordar com cada palavra. 

Mas fique atento. O mais importante de tudo é exercitar os dois primeiros itens e saber quem são, simbolicamente, os interlocutores. De um lado, você que, por ter nascido homem, ocupa socialmente o espaço de privilégio do opressor. Do outro, uma mulher, seja qual for, que pelo simples fato de ter nascido mulher faz parte de um grupo oprimido.

Faça perguntas curiosas, genuinamente interessadas (se houver interesse genuíno, claro), tente entender, seja aprendiz. 

Não entre num embate, numa discussão, argumentação ou convencimento. 

Uma coisa é certa: aquela mulher ali, falando de como é ser mulher, provavelmente sabe mais disso do que você.

4. Não solte falas humanitárias

- Vocês estão sendo muito agressivas. Nós todos somos seres humanos, e precisamos de menos luta, mais paz.

Não faça isso, meu rapaz.

Essa fala, entre outras falas espiritualizadas, tem seu momento. Esse, com certeza, não é um deles.

Falas generalistas, que colocam todas as pessoas em grupos maiores, como iguais (seres humanos, indivíduos, cidadãos), não são muito úteis em contextos onde se discute opressão de certos grupos sob outros. 

Para tratarmos de grupos minoritários e direitos humanos precisamos, antes de tudo, ter em mente o princípio constitucional da igualdade: dar tratamento isonômico às partes significa tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na exata medida de suas desigualdades.

Chamar toda a galera - homens e mulheres - de “seres” ao discutir desigualdade de gênero não faz qualquer sentido e de duas uma: ou é bastante ingênuo ou é bastante injusto. Ou os dois.

5. Não use uma amiga de exemplo

- Ah, mas eu tenho uma amiga que adora receber cantada na rua!

Não use a opinião de uma mulher para legitimar a sua própria.

Muito possivelmente ela está reproduzindo posturas machistas da sociedade em que vive.

De qualquer modo, aquela, na sua frente, é outra mulher. Com outras vivências e opiniões. Escute.

6. Não fale sobre si ou sobre os homens

Esse item tem bastante relação com treinar a não-opinião e é um dos principais motivos pelos quais muitas feministas decidiram não dialogar mais sobre feminismo com homens e focar toda a força de diálogo em grupos de empoderamento feminino apenas.

Vira e mexe os homens cometem o grande erro de levantar questões sobre si próprios em meio a discussões feministas:

- Mas nós homens também sofremos com o machismo.
- Será que vocês não estão sendo muito duras com os homens, adotando falas anti-homem?

É comum indivíduos de grupos privilegiados (eu, como branca de classe média, e talvez você ainda mais, como homem, branco, de classe média) não enxergarmos de cara os nossos privilégios e termos respostas prontas, argumentos fortes e visão estreita pra combater os tapas na cara que nos dão quando nos dizem: - oi, você é sim um privilegiado e opressor.

Retrucar com um grande não, se irritar, rebater sem ouvir o outro lado e principalmente trazer a fala de volta para si, seu próprio grupo e suas próprias questões só reforça que você é, de fato, privilegiado e está escancaradamente ensimesmado, com olhos no próprio umbigo.

Não cometa o erro do meu amigo. 

Ao ouvir uma mulher falar sobre as dificuldades de ser mulher em uma sociedade machista e patriarcal, não leve para o pessoal, não se sinta atacado, não traga pra mesa as suas dores. 

O mundo já é seu palco. Tem sido por anos a fio. 

Mas essa conversa não é sobre você.


* Quero convidar todas as minas pra incluírem tópicos nesse guia, comentando aqui no texto. O que você acha que é importante dizer pra um homem sobre o assunto? O que ele deve ter em mente ao falar de feminismo ou ouvir uma mulher? Comentem. :)