Escolas: para que e para quem?

Já pensei um bocado sobre o assunto. Mas ele é tão delicado, cutuca tão forte fundamentos e morais norteadores da família, junto com preceitos éticos arraigados em cada um de nós, que achei melhor deixar de lado. Pois é. Falhei na missão.

Ontem, recuperei esse vídeo do John Taylor Gatto - 76 anos, americano, professor aposentado e crítico ativista da educação compulsória nos Estados Unidos, e lá estava ele, nos primeiros segundos, nos dizendo o seguinte (com o perdão da tradução, que nunca entrega toda a emoção da língua original):

Escola é uma forma de adoção. Você entrega o seu filho, nos seus anos mais plásticos e moldáveis, a um grupo de estranhos. Você aceita uma promessa, às vezes explícita, mas normalmente implícita, de que o Estado, através de seus agentes, sabe criar e educar melhor os seus filhos do que você, seus vizinhos, seus avós - do que as suas tradições locais. E de que seu filho estará melhor assim, adotado, para quando tiver a opção de voltar para a família, muito provavelmente escolherá não voltar. Seus pais são uma forma de estranhos amigos, e por que não seriam? Nas horas mais importantes do crescimento, estranhos o criaram.”

Fatalmente, voltei a pensar no assunto - tomando alguns cuidados antes de sair por aí, repetindo aos quatro ventos. Porque, cá para nós, dá medo de dizer tudo isso aí para uma mãe e ganhar de volta um belo tapa na cara. Daí, resolvi conversar com algumas pessoas envolvidas com educação e que admiro, para tentar entender o outro lado da moeda: o dos pais.

Percebi, nas conversas, que muitos pais e mães modernos não estão totalmente satisfeitos com o modelo tradicional de educação. Eles questionam principalmente o sistema didático e estrutural, de transmissão de conteúdo e organização geral das escolas. As disciplinas constritas em grades curriculares sem sentido, as provas constantes e com menos sentido ainda, a figura do professor inflexível a quem se deve nada menos que obediência e respeito. Parece ser quase que um senso comum a ideia de que a “nova escola” deve ser muito mais elástica, interdisciplinar, além de prover atividades extras que irradiem os mais variados estímulos - arte, cultura, música, e por aí vai.

Por outro lado, parece haver uma outra consonância, quase que tácita, entre pais da nova geração - e que vem à tona nas discussões que se instauraram no mundo inteiro acerca do homeschooling (à parte daquelas que já gravitam em torno da questão penal no Brasil). Esses pais acreditam piamente que a escola, independentemente da pedagogia e das propostas de cada instituição, ainda tem um papel social fundamental no desenvolvimento da criança e do jovem. A escola insere, mistura, ensina limites, respeito e convivência. Ajuda a criança a entender o mundo e a lidar com a vida e suas intempéries. Logo, socializa. Será?

Digo, na lata, que não. E vou tentar explicar o porquê.

A não socialização escolar começa do começo: na escolha da própria escola, pública ou particular. Vivemos hoje, no Brasil, um abismo entre as duas opções, e, ao decidir por uma ou outra, já se define em qual extensão dos dois mundos, das bolhas, a criança irá viver. Esse primeiro passo não está relacionado ao modelo pedagógico ou à boa vontade dos pais. É um reflexo de um país fragmentado. A escola, portanto, não precisa de muito mais. Já começa como a bolha dentro da bolha.

Isso porque a escola potencializa a segregação de classes sociais murando crianças de um convívio mais amplo, que só se dá através da vida em comunidade, na cidade. A convivência é restrita a crianças dentro da mesma faixa de renda, e que, portanto, moram nos mesmos bairros, frequentam os mesmos lugares, vivem as mesmas rotinas. A divisão por classes de alunos, para as escolas que são de classes, peneiram também por idade. Há ainda aquelas que separam por gênero e outras, absurdas e recorrentes, que segregam por notas e desempenho. Pronto. A receita do insucesso está preparada e pontuada. John Taylor Gatto, como muitos outros, falou disso em 1990, meio a um discurso que fez ao ganhar o prêmio de professor do ano em Nova York:

"É anti natural ser parte de um sistema que te compele a sentar em confinamento com pessoas da mesma idade e classe social. Esse sistema efetivamente te corta da imensa diversidade da vida e da sinergia da variedade. Esse sistema te corta, consequentemente, do seu protagonismo e do futuro, te escalando a um estado de continuo presente – do mesmo jeito que a televisão faz.”

A esterilidade de se viver entre semelhantes vai além. Os muros das escolas protegem não só de crianças diferentes, mas também dos adultos em geral e da troca tão fértil que vem da interação entre gente grande e gente pequena. Os únicos adultos que permeiam o ambiente escolar ainda são professores e tutores, aos quais se deve submissão e respeito, e que teoricamente sabem, melhor que todos, o que deve ser ensinado e como. A entrada e saída dos pais e de outros “grandes” é restrita e controlada. E aí, onde fica a troca? Em última instância, que socialização é essa, que isola e aparta?

“Que tipo de socialização se produz quando 20 ou 30 crianças da mesma idade são colocadas em uma sala de aula juntas, dia após dia? A pressão social é enorme. As crianças sentem que necessitam ver, ouvir e ser como os demais, correndo o risco de se esquecerem ou nunca descobrirem quem realmente são. Isso dá lugar à rivalidade, ao ridículo e à concorrência – o que dificilmente criará um ambiente de socialização saudável.”  - Isabel Shaw

“As crianças que se socializam através de contatos individuais com crianças, jovens e adultos de idades diferentes se mostram mais empáticas, cooperadoras e vêem os adultos como aliados, e não como inimigos.”  - Péter Szil

A pergunta talvez seja outra. O que é que pode socializar melhor do que a própria sociedade, com suas disparidades, diferenças e incongruências? E que ambiente ideal é esse, que - fechado a vácuo - prepara melhor para o mundo que o próprio mundo, com seus problemas reais e demanda por soluções verdadeiras?

“Não há escassez de problemas reais na cidade. As crianças podem ajudar a resolve-los em troca de respeito e atenção do mundo adulto. Bom para as crianças e para todos nós. Esse é o currículo que ensina justiça, uma das quatro virtudes cardeais de qualquer sistema de educação de elite.” - John Taylor Gatto.

A verdade é que a escola, muitas vezes, pasteuriza, homogeneíza e agrava a situação de fragmentação social em que vivemos, pescando as crianças e jovens do mundo real. E dessa verdade é que vem a verdade realmente dura: a de que os pais, ainda que, lá no fundo, entendam e saibam disso, não tem tempo para seus próprios filhos. Outras coisas urgem e a única saída é a terceirização-adoção.

Voltamos à primeira fala do John Gatto, do vídeo, tão redonda e real que dói: escola é uma forma de adoção. Se ele fosse brasileiro, diria apenas: Tudo errado. Quem pariu Matheus que o balance.