As coisas que a escola ensina no campo sutil

Não sou mãe, ainda. E longe de mim querer condenar os milhões de pais que fazem o que podem (e o que não podem também) pela educação dos filhos, tentando sempre acertar.

Mas a verdade é que ando vendo muitos pais se embananando nessa jornada, na melhor das intenções.

Cuidam com afinco do que acontece dentro de casa, estabelecem princípios, tentam transmitir valores, e, ao mesmo tempo, analisam a “escola ideal” com parâmetros racionais um tanto arbitrários e insuficientes: essa pedagogia faz sentido, lá tem ótimos professores, currículo forte, aprova no vestibular, garante vagas no ensino médio das melhores escolas de São Paulo, e ainda é pertinho de casa.

Não que tudo isso não faça sentido. Acredito mesmo que a pedagogia pode fazer uma enorme diferença e que uma escola perto de casa, principalmente em cidades como São Paulo, pode dar aos pais horas preciosas com o filho depois do dia de trabalho.

Acontece que esses pais esquecem de olhar com atenção para as questões sutis - e eu ouso dizer, as mais importantes - que pairam naquele ambiente escolar. Quem está ali? Quem forma aquela comunidade? Qual é a cultura legítima transmitida, expressa ou tacitamente, naquele entorno? Quais as bases fundamentais daquelas pessoas? 

Na hora de optar por uma escola (se colocar na escola foi a escolha dos pais), o ideal é pensar que a família toda (e não só a criança), está entrando em uma nova comunidade - da qual deve fazer parte ativamente. 

Isso mesmo. Uma boa pergunta para os pais se fazerem é a seguinte: essa comunidade faz sentido para mim? Quero integrá-la, fazê-la crescer, evoluir? Aqui estão meus pares? Há uma base comum?

Essas são as escolas que fazem sentido. Aquelas que formam uma comunidade coesa, composta por crianças, professores, pais, funcionários, diretores, visitantes, etc. Aquelas em que os pais não são “clientes”, são parte integrante.

É claro que o ideal mesmo, sob o meu ponto de vista, e o que muitas pessoas tem feito frente à rotina louca nas megalópoles, é virar a chave e mudar de vida. Criar, no ambiente que se entende favorável, uma comunidade do zero. Com quem quer que faça sentido. É o que se faz nas chamadas comunidades intencionais pelo mundo afora. Aí, a educação é só mais um pedaço da vida em comunidade e se desenvolve ali, naquele espaço construído e cultivado por todos, sob bases comuns e compartilhadas. 

Mas, infelizmente, muitos de nós ainda vive (e pretende seguir) nas grandes cidades, com uma vida atabalhoada, atropelada, de muitas horas de trabalho. Triste, mas real.

É dessas situações que esse texto fala. Da pontinha do iceberg. 

Quando os pais não pretendem viver numa comunidade criada por eles com outros pares, nem podem (ou querem) ser parte ativa da comunidade que forma a escola, a dica é encarar isso de frente e botar o binóculo para enxergar de verdade o campo sutil.

Não adianta só olhar pros professores e diretoras. Grande parte do aprendizado do seu filho, cognitivo inconsciente, se dá nas relações com outras crianças, outros pais, outras famílias, outras pessoas - por meio de mecanismos sociais de pertencimento, acolhimento, identificação e formação de grupos.

Por isso, não se assuste se a escola é bem cotada, bacana, fica no seu bairro, mas sua menina de 8 anos volta para casa falando que quer festa de aniversário com limusine e champanhe sem álcool - ainda que aquilo esteja totalmente fora do espectro da educação que você tenta direcionar.

A vida está integrada. Não dá mais para falar em escolas, temos que pensar em comunidades de educação. A escola só calha de ser uma delas. A cidade também.